sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Seis anos de vida


Marcela ainda olhou para trás e viu-o caminhar. O passo não era tão regular como antes, o tronco parecia menos direito, mas a cabeça, essa continuava com o mesmo porte de antigamente. Com mais dignidade até porque os cabelos brancos davam-lhe uma auréola diferente. Foi tudo há tantos anos, pensou.
Era o seu primeiro dia na Universidade. Finalmente tinha conseguido vencer a oposição do pai e da maioria da família. Mas tinha o apoio, sempre incondicional, da mãe que via na filha a realização de um sonho que ela própria não conseguira concretizar. O de ser médica. O de ajudar os outros ajudando-se a si própria na através da sua vocação.
Foi numa das primeiras aulas que o conhecera. Quase cegara de encanto, a ouvi-lo. Lindo de morrer, mas sobretudo um professor de excelência. Tudo era simples através das suas palavras. Foi numa dessas palestras que se apercebeu que estava apaixonada. Pelo mestre. Mas também pelo homem. E a decisão surgiu de imediato. Ela iria ser a sua melhor aluna, a sua mais dilecta ouvinte, a sua mais preciosa colaboradora. Não sabia como tudo isto se iria concretizar. Mas tinha a certeza de que não falharia. Para tanto fez um levantamento exaustivo de quem era o seu amor. Desde a família, aos gostos pessoais e interesses científicos, tudo foi passado a pente fino. Nada ficou de fora!
No primeiro trabalho escolar proposto, escolheu exactamente aquele que melhor se enquadrava no apuramento que fizera das suas preferências. Foram horas e horas de trabalho. Mas que haviam de merecer não só o elogio, mas a discussão pública, perante a turma do tema por si analisado .
Marcela sentiu-se quase como uma "igual". Não era, claro. Mas ele, Afonso, tinha dado por ela! E esse facto foi determinante. Seguiram-se novos trabalhos e novas oportunidades de um contacto mais próximo. Agora, era ele quem solicitava a sua colaboração para aquilo que publicava.
O ano escolar acabou. Marcela teve, como seria de esperar a mais alta classificação. No fim do exame o professor disse-lhe que ela havia sido a sua "descoberta do ano". E obteve resposta pronta. Sem pensar, a aluna retorquiu " o professor também". Seguiram-se uns segundos de silêncio. Depois, um convite para jantar. Algo parecido com uma comemoração.
A este seguiram-se outros. E aos outros, seguiram-se encontros vários. Mais íntimos.
A aproximação profissional também se consolidou. Quando a licenciatura chegou os convites foram muitos. Marcela continuava apaixonada, mas sabia que a sua vida familiar, se algum dia existisse, não passaria por aquele homem. O tempo tornara-a sábia e ensinara-lhe que Afonso não era para casar...
Assim, quando veio o convite para leccionar nos Estados Unidos, não hesitou. Aceitou, sabendo que, de uma só vez, ia resolver dois problemas. O profissional e o pessoal.
Os anos passaram. A América passou a ser a sua pátria e Portugal a sua origem. Casou e teve filhos. Divorciou-se. Duas vezes.
Hoje era uma profissional de renome. Viera a Portugal fazer uma conferência e resolvera ficar uns dias na capital. À saída do hotel resolvera descer a Avenida da Liberdade. A manhã estava soberba. Parou numa pastelaria para beber um café. Aquilo de que verdadeiramente sentia saudades... Ao lado, no balcão estava um homem que a olhou fixamente. Mas nem um sorriso esboçou.
Marcela teve uma sensação estranha. Aquele olhar tinha algo de familiar. Quando o indivíduo saíu, soube. Ainda esteve para o tentar apanhar. Mas ficou parada no passeio, a vê-lo afastar-se. Estavam ali, naquele homem, corporizados seis anos da sua vida. Seis anos...
Helena

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O estado civil...

Odete sabia o que era ser solteira. E também o que fora ser casada. Agora estava a aprender como era ser divorciada... e ainda como era ser viúva.
Nenhum daqueles estados civis por que já passara a tornaram muito feliz. Do primeiro recordava o mau feitio do pai e o medo da mãe. Do segundo as lembranças não eram igualmente muito boas. Nunca amara o marido e apenas o aceitara para fugir ao ambiente paterno. Mas o José, todo mesuras enquanto namorado, depois de casado mais se ia parecendo com o aquele que lhe dera vida. Enfim, até aos trinta anos, Odete vivera aprisionada...
Mas um dia, uma sua prima emigrante em França, veio de férias a Portugal e virara-lhe a cabeça, como a família dizia. Odete começou a perceber que nem todos viviam como ela e que se tivesse coragem podia mudar o deu destino.
Aguentou mais seis meses. Poupou tudo o que podia. E, numa bela madrugada, sem que ninguém desse por isso, abalou na carreira para o Porto. Uma vez na capital, chegar ao aeroporto foi o seu destino.
Não se perdeu nem se enganou. Mas, de facto, só no avião se sentiu segura.
A prima e trabalho esperavam-na em Paris. Todos a procuraram e quando finalmente a encontraram, ela só quis o divórcio. A distância e o consulado ajudaram. Um ano após a saída da aldeia, Odete era uma mulher divorciada. Livre. Até para se casar de novo... Pensava ela, porque a sentença não transitara ainda em julgado, e ela ignorava o que isso significava.
Poucos dias depois de obter a liberdade, chegaram-lhe notícias do país. O marido que já deixara de o ser, morrera num acidente. Ou seja, sem o saber, Odete transformara-se, subitamente, numa pessoa cujo estado civil era confuso. Com efeito, para efeitos legais não estava ainda divorciada, mas também de viúva não podia ser chamada!

Helena


segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Encantos virtuais


A internet era a sua paixão. E, diga-se de passagem, a sua única companhia. Luisa nem sabia explicar como tudo tinha começado. De facto, não era muito dotada para as tecnologias mas as amigas começaram a estimulá-la, a dizer-lhe que podia fazer amigos na rede, que os perigos eram só para quem se arriscava.
Primeiro foi o portátil. Habituou-se de tal modo a ele, que o levava para todo o lado. Depois, foram as redes sociais. Claro que participava de todas as que conhecia ou ia conhecendo. A seguir foi a blogosfera e todos os importantes pensadores do país que se exprimiam daquele modo. Luisa começava até a ser conhecida num restrito número de amigos virtuais. É sempre assim, diziam-lhe todos.
Mas um dia Luisa arriscou-se. E foi espreitar alguns amigos dos seus virtuais amigos. Começou justamente assim o seu conhecimento com Osvaldo. Ele até já podia ter fãs. Começaram na rede e passaram ao correio electrónico. Deste, passaram ao telefone que para ele era gratuito. Coisas de pacotes promocionais, dizia. Eram conversas em tempo real. Ele engenheiro ela educadora infantil.
Do telefone ao encontro demorou algum tempo. Talvez quatro meses, que fizeram crescer nela uma esperança. A de, finalmente, encontrar a alma gémea.
O encontro não a desiludiu. Osvaldo era tal e qual a foto que apostara na sua página. O envolvimento foi-se tornando cada vez mais íntimo e Osvaldo já se mexia na casa dela como se fosse residente. Luisa dera-lhe a chave para ele a surpreender sempre que quisesse.
Mas nas férias foi difícil compatibilizar datas. Luisa ia para Paris a 26 de Agosto e Osvaldo chegaria dois dias depois.
O dia 28 de Agosto passou e Osvaldo não chegou. Nem atendia o telefone. Até a página da rede havia sido fechada. Luisa entrou em angústia e telefonou para uma vizinha. Foi quando esta lhe deu os parabéns pela nova casa...
Quando, a 30 de Agosto, Luísa chegou a Liboa tinha, na verdade, uma nova casa. Vazia!

Helena

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O Bígamo

Sempre teve duas mulheres. Nem alguma vez, se pensou a viver de modo diferente. Filhos é que não. Esses, aliás, essas - porque de duas raparigas se tratava - eram nascidas da "legítima", com quem se manteve casado mais de 25 anos.
Mas, um dia - há sempre um destes terríveis dias -, a segunda fartou-se e encostou-o contra a parede. Mais concretamente, ou ele se casava com ela, ou o caso - que tinha quase tantos anos como o próprio matrimónio - morria de morte natural.
Encurralado, António foi obrigado a escolher. E escolheu separar-se da primeira, tendo já em vista quem iria ocupar o lugar da segunda.
Assim iniciou todas as demarches que o caso impunha. Aldina só lhe fez uma exigência. A de que a morada de família, propriedade de ambos, fosse transferida para o nome das duas filhas. O assunto nem sequer mereceu discussão. Mas António não deixou de ficar surpreendido com a facilidade com que a mulher aceitou os novos factos. Até, talvez, tenha ficado mesmo incomodado. Que diacho, tanta naturalidade, era chocante.
Outro dia - nem seis meses sobre o divórcio haviam passado - o nosso homem recebe um telefonema da ex- mulher a pedir-lhe que vá falar com ela. Ficou preocupado porque tal nunca, até aí, acontecera.
Chegado o dia lá se juntaram num café. Aldina começou e o diálogo foi assim:
- Depois de mais de 25 anos de vida em comum, entendo que devo ser eu a dar-te a notícia.
- Que notícia? indagou António
- A do meu casamento.
- Do teu casamento? Mas ainda nem sequer passaram os nove messes que a lei vos exige...
- Não faz mal, porque me vou submeter a um exame no Instituto de Medicina Legal que atestará que não estou grávida e, assim, já posso casar mal prefaça seis meses de separação.
- Mas porquê tanta pressa?
- Bom, é sobre isso que te desejo falar. É que quero que saibas por mim e não por qualquer outra pessoa que, há dez anos, mantenho uma ligação com o homem com quem, agora, me vou casar.
- O quê?!
- Apenas isso que ouviste.
- Então foste adúltera durante o nosso casamento?
- De certo modo sim. Tanto como tu, aliás. Mas agora, pelo menos, podemos ambos corrigir a situação!

Helena

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A brasileira


Nunca se sabe como se acaba. Nem tão pouco como se começa, porque, dizem os entendidos, não há memória factual com menos de três anos.
A Julinha era uma destas pessoas de fraca memória. Esquecia o mal que lhe faziam com a naturalidade com que se lembrava das alegrias que tinha tido. Era uma santa, diziam. E de facto, ao Domingo, era vê-la com o seu melhor traje, ir para a comunhão dada pelo senhor padre Eurico. Tinha quase trinta anos e de namoro nem a sombra...
Mas, um dia tornou à terra o Francisco, que era embarcadiço e de quem se contavam muitos amores deixados pelas terras onde o barco aportava. De casório, nem palavra.
Pois foi a Julinha que o encantou, apesar de ser enfermiça, como ele próprio dizia. E lá se fez o arranjo entre os dois com a benção do padre Eurico.
Os anos passaram, as partidas e chegadas continuaram e os filhos não apareceram. Até que o nosso homem deixou-se de barcos e quedou-se pela terrinha, hoje quase transformada numa sucursal brasileira nas gentes, nos usos e nos costumes.
E, porque a saúde do casal não andava em grande forma, os amigos convenceram-nos a contratar uma empregada. Foi o padre Eurico que a recomendou. E a Neusa, nascida no Mato Grosso, lá ficou a tratar dos velhotes. Primeiro umas horas. Depois o dia inteiro. Finalmente a dormir.
"É um amor", dizia o casal. "Ela anda metida com o ti Xico", diziam as más línguas.
Hoje vivem os três de cama e pucarinha. A Julinha espevitou. O Francisco está outro homem. E o pároco, arredado do pecado, está satisfeito com a ajuda que deu à Neusa. Esta, indiferente aos rumores, já conseguiu a proeza de levar os dois ao Brasil, para conhecerem a família.
Não há dúvida que as brasileiras têm um pendor para revolucionar os nossos costumes. E há até quem, lá na terra, já fale em copiar...

Helena

domingo, 11 de julho de 2010

Uma vida especial!


Na escola ninguém dava por ela. Boa aluna, discreta, fugia dos recreios para ficar a estudar. Os colegas tentavam arreliá-la e davam-lhe alcunhas. Nada a demovia. Na biblioteca ou num canto de um corredor, Joana estava sempre agarrada a um livro ou a escrever num caderno.
Assim levou a escola primária e depois o liceu. Entre os excelentes.
Nada se sabia da família, dos seus gostos ou desgostos. Parecia que os não tinha. E assim chegou à Universidade onde entrou de souquettes. Também aí se começou a fazer notar, porque tinha sempre apontamentos que complementavam os livros por onde todos estudavam. No fim do primeiro ano era a melhor. Foi quando se soube que tinha uma bolsa de estudo!
No segundo ano ninguém a reconheceu. Aprumada, saltos altos, cara maquilhada, passara de crisálida a borboleta. Os rapazes apareceram e os convites também. Nada perturbou o seu caminho. Terminou, uma vez mais entre os melhores. E, sem qualquer dificuldade, encontrou o seu trabalho. E também o seu amor que lhe havia de proporcionar a experiência de ser mãe.
De filhos igualmente especiais que, na sua área, são imensamente respeitados.
Morreu há uma semana, com 97 anos. Rodeada de todos os seus.
Há vidas assim. Especiais!

Helena


domingo, 4 de julho de 2010

Os outros



Penso muitas vezes nas "estórias" das pessoas que me rodeiam e eu não conheço. Quando os meus filhos eram adolescentes e iamos jantar ou almoçar fora, tinhamos uma brincadeira que era olhar para uma determinada mesa e dar-mo-nos cinco minutos, após os quais cada um de nós contava a novela dos membros da referida mesa. Era muito curioso ver como diferiam os "olhares" sobre a mesma realidade.
O que também dizia muito não só de nós próprios, como da nossa forma de encarar os outros, para além de nos pôr a falar de realidades distintas. A minha mãe fazia muito esta experiência comigo. Quando eu era mais crescida pelos meus dezoito ou vinte anos, acabavamos sempre numa imensa risada por causa dos guiões que ambas inventávamos.
No fundo, acabei por repetir com os meus aquilo que já os meus pais haviam feito comigo. Hoje lembrei-me disto a caminho do aeroporto, quando fui bucar o meu filho mais novo, que tinha ido visitar o mais velho. É que, por uns tempos largos, não voltaremos a estar os três a fazer destas estórias...

Helena