segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O vaso de crisântemos



Joana vivia num meio rural do interior do seu país. Corria quilómetros para aprender a ler, objectivo que já era considerado pelos seus pais como sendo mais do que a vida lhes tinha a eles permitido.
A sua curta existência tinha sido passada quase sem assentar em lugar fixo, porque o seu pai ia para onde houvesse trabalho de campo. Assim, com dez anitos já deveria ter conhecido mais de uma dúzia de terras. E era quase sempre quando começava a fazer amigos que tinha de se mudar. Foi, portanto, uma criança isolada que preferia os objectos às pessoas. Porque estes, sendo parcos, eram tudo o que possuía de seu.
Estava naquela terriola há seis meses e todas as noites olhava para o vaso de crisântemos que havia encontrado quando ali chegou, como se ele fosse a ampulheta do tempo que havia passado e, simultaneamente, daquele que lhe faltaria para dali sair. A planta, cuidada com todo o carinho, estava viçosa e era, de facto, a sua companhia. Todos os dias falava com ela os segredos que as outras crianças falavam com as amigas.
Um dia, ao chegar a casa, vinda da escola, o vaso havia desaparecido. Joana correu as redondezas para o tentar encontrar. Tudo debalde. Nunca soube o que lhe tinha acontecido. Apenas sabia que estava agora muito mais sozinha. A partir daí os dias corriam tristes e ninguém parecia conseguir compreender o que se passava com ela.
Os anos correram e os tempos melhoraram. Joana fez-se mulher. Deixou de rolar de terra em terra. Os pais acabaram, finalmente, por se poderem fixar ali. 
No seu quarto, junto à janela, está um vazo com crisântemos. Foi a primeira compra que fez, quando arranjou trabalho, apesar de, nessa altura, já contar com algumas amigas...

HSC

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Sem vida própria

Há vidas que nunca o chegam a ser, porque são sempre vividas como se fossem as de outras pessoas. Era isto que Teresa, hoje com mais de meio século de vida, pensava enquanto arrumava umas cartas das filhas, agora a estudarem e a viverem no estrangeiro.
Como é que tudo lhe acontecera, quando aos vinte anos sonhava ter uma família e uma carreira? Não sabia responder, porque perdera a noção precisa do momento em que essa viragem se dera.
Lembrava-se bem de que quando a Isabel nascera ela sentira necessidade de ficar para sempre junto dela e do muito que lhe custou retornar ao trabalho, deixando-a nos braços da empregada até ao fim do dia. 
Quando a Sofia veio ao mundo, decorridos apenas dois anos sobre o primeiro parto, passou a trabalhar em casa para dar assistência às duas. A decisão foi, sobretudo, sua. A partir daí deixou, de facto, de ter a sua própria vida para se entregar à das crianças.
Uma terceira filha havia de aparecer, numa altura em que a carreira do Pedro, seu marido, tivera já uma boa progressão. Foi então que sentiu necessidade de voltar a trabalhar e partilhou essa carência com o homem com quem dividia a vida.
Mas, para sua surpresa, a reacção não foi a esperada. A posição que ele atingira na empresa impunha-lhe que estivesse presente numa série de eventos que não eram compatíveis com carreiras pessoais. 
Ficou triste mas compreendeu que o marido precisava do tempo dela. Foi assim que, aos poucos foi abdicando do seu próprio tempo. E agora, que nem o Pedro nem as filhas precisavam mais desse bem raro, Teresa sentia-se perdida, sem vida pessoal e sem compreender como durante trinta anos se contentara com viver apenas a vida dos seus!

Helena

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

DESENCONTROS

Marta teve durante toda a sua adolescência o trauma de ser filha de pais divorciados. Naquela época essa circunstância limitou-lhe os convívios e até as amizades. Era um tempo em que os casamentos se supunham para toda a vida.

Talvez fosse essa circunstância que a levasse a olhar a carreira como um substituto da família até à sua entrada na juventude e na Universidade. Aí, no meio desses homens e mulheres que batalhavam em pé de igualdade perante as mesmas dificuldades, ela compreendeu que nada a diferenciava dos restantes colegas.
Mas subsistia uma névoa que se manifestava no seu desejo de constituir uma família sólida que nada pudesse, jamais, abalar. Foi assim que veio o primeiro e único namoro com um jovem que havia de se transformar no seu marido.
Marta foi mãe de um casal e a sua vida passou a girar entre o emprego e os filhos. O seu parceiro ia dando sinais de que se sentia preterido, mas ela não lhes ligou grande importância. Até ao dia em que se deu conta de que a vida deles como casal havia mudado radicalmente. Nesse momento tentou inverter a marcha dos acontecimentos, mas era tarde. Miguel já havia preenchido o espaço que Marta havia deixado livre.
Seguiu-se o inevitável divórcio que a deixou com a responsabilidade maior de educar dois filhos e a sensação trágica de que perdera, por omissão, o homem da sua vida.
Os anos foram decorrendo e Marta estava decidida a ser uma pessoa diferente se voltasse a encontrar, de novo, alguém que valesse a pena. Esse dia chegou e com ele todo um processo de entrega da sua vida a esse novo amor.
Todavia a vida não se escreve por episódios e, ao fim de algum tempo, Marta percebeu que não era essa personagem que ela  dedicadamente encarnava, que o seu homem precisava. Isto era tão verdadeiro que se os seus dois maridos se juntassem para falar dela, nenhum a reconheceria.
Novo divórcio e uma constatação dolorosa. Quem o seu segundo marido queria, de facto, era a Marta do primeiro. E este teria sido, eventualmente, feliz com a Marta do segundo. A vida também é feita destes desencontros...


Helena 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Crianças do nosso tempo

- Vasco, o que é que queres ser quando fores grande? perguntou a professora
- Rico, respondeu
- Rico? Sim muito rico, para mandar nos outros e ninguém mandar em mim
- E tu Sérgio, o que queres ser quando fores grande?
- Mais rico que o Vasco, para ele não mandar em mim.
- Tu Mariana, o que vais ser?
- Mulher do Sérgio.
- Mulher do Sérgio, porquê?
- Para ser rica e eu mandar nele
- Vasco, o que fazem os teus Pais?
- Nada. Estão desempregados.
- E os teus, Sérgio?
- Trabalhavam para os pais do Vasco. Agora estão desempregados também.
- E os teus Mariana?
- São donos da empresa onde trabalhavam os pais do Vasco e do Sérgio
- Então vais ficar pobre se casares com o Sérgio.
- Não. Vou ficar rica porque ambos vão trabalhar para mim sem eu pagar
- Mas como?
- Um vai ser rei e o outro Primeiro Ministro.
- Mas quando e onde?
- Isso é que eu ainda não sei...

Helena

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Cuide-se!

Era um fim de tarde de Outono, num Domingo. Ester vivia há tanto tempo sozinha, que já não distinguia os fins de semana dos dias úteis. Gostava de passear, ora no meio de multidões ora no meio de solitários jardins.
Assim, meteu-se a caminho da beira Tejo e andou até sentir que estava cansada. Um pouco mais à frente descortinou um banco virado para o rio e sentou-se. Não sabe quanto tempo terá estado assim. Provavelmente terá passado mesmo pelas brasas, admite. Voltou à realidade quando uma senhora de idade e boa aparência se sentou ao seu lado e lhe perguntou as horas. Respondeu e ficaram ambas caladas durante algum tempo.
No banco do lado direito um par de namorados tecia o seu rosário de sonhos. A certa altura, a senhora murmurou: 
- ainda não sabem nada da vida
- ainda há gente feliz
- dura pouco a felicidade...
A conversa ficou por aqui. Uma meia hora decorrida a senhora levantou-se e despediu-se. Já em pé exclamou, a sorrir, um amistoso "cuide-se".
Ester ficou ainda mais um pouco. Quando começou a escurecer voltou para casa, não sem antes entrar numa pastelaria e beber um café para re-aquecer. Quando ia pagar percebeu. O porta moedas, melhor o porta notas não estava na carteira. No seu lugar, numa espécie de contra partida em contrapartida encontrou um cartão que tinha impresso a frase " Foi um prazer. Cuide-se!".

Helena

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O passado não volta...

- Não me abandones agora. Deixa-me ficar nos teus braços mais uns minutos. Aperta-me como antes, quando tínhamos dezasseis anos.
- Mas nós não temos mais dezasseis anos, Bárbara. Temos cinquenta e muita coisa passou por nós. Já não somos as mesmas pessoas que então éramos.
- Não é verdade, Tiago. Nós somos os mesmos. O mundo que nos rodeia é que é diferente. O teu coração, que eu ouço, bate como sempre bateu. Os teus braços envolvem-me do mesmo modo e os teus beijos têm o mesmo sabor da adolescência. Será que não sentes a mesma onda de calor que eu, nesta praia onde há tantos anos nos amávamos, neste céu que continua a nos envolver do mesmo modo?
Fica comigo, Tiago, nem que seja apenas por uma noite. Eu quero ficar contigo, relembrar outro tempo, que foi só nosso.
- O tempo que temos já não é mais nosso. O "nosso" é um possessivo que foi verdadeiro. Não é mais. Também a mim me sabia bem recordar a nossa história, descobrir em nós a rapariga e o rapaz que já fomos. Mas para quê?
- Fica comigo, Tiago. Só esta noite. Para que tenhamos uma lembrança viva, actual, do que ainda somos um para o outro.
- Não sei, Bárbara, se "ainda" é um termo que se aplique a nós...
- Se não ficares, Tiago, nunca saberás.

A noite ia longa naquela praia que foi, durante anos, o leito de amor dos dois adolescentes que ambos haviam sido. E onde acabaram por ficar, um no outro, aquela madrugada. 
Levantaram-se e caminharam mãos nas mãos à borda de água. Depois pararam, beijaram-se com sofreguidão e cada um caminhou para o seu carro. Para seguir a sua vida. Mas ambos tinham, agora, uma lembrança mais fresca, intensa, gostosa, um do outro. O que iriam fazer dela, no futuro, seria o segredo de cada um!

Helena


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Tango

É uma pessoa como deve ser, costumavam dizer dele. Dele, Artur. E tinham, de facto razão. Toda a sua vida fora enquadrada por espartilhos de boa compostura, Um bom filho, um bom estudante, um bom profissional, um bom marido e um bom pai. Quase se esquecera que havia gente que não era assim. Que só era competente numa ou duas áreas. E às vezes até nem isso...
Mas um dia apareceu-lhe uma mulher que todos diziam ser "assanhada". Nem ele bem sabia o que isso queria dizer até a ter conhecido e ter ficado ali, especado a olhar para ela. Especado é o termo porque não conseguiu sair do local em que se encontrava nem se lhe ouviu o vago "prazer em conhece-la" que tentou pronunciar. 
Ao invés, ela nem quase olhou para ele, seduzida que ficou por um argentino que, destacando-se no meio de um salão cheio de gente, pegou nela e de modo inesperado, a levou pelos ares ao som do tango que se fazia ouvir. De tal modo foi surpreendente o gesto, que todos pararam de conversar, lhes deram espaço e ficaram a ver o par deslizar.
Artur teve um impulso louco e, fazendo sinal à orquestra para continuarem a tocar, com um movimento brusco, roubou Penelope dos braços do seu par, tomou-a nos seus e agarrando-a como se fosse sua, levou-ao ar e, competiu com ganho, no tango que se seguiu, corpos colados, pernas em hélice, respiração ofegante, enfim o que se costuma imaginar do "dois em um"... 
Nem ele sabe explicar o que lhe aconteceu. No último acorde, inspiração de um e expiração de outro confundidas, lábios quase unidos, Penelope pára, dá-lhe um estalo e afasta-se a passos largos - deixando-o sozinho no meio da sala -, para se dirigir a Enrique, a quem beijou cheia de sensualidade e olhando Artur com altivez, saíu. Este continuava no mesmo sítio, hirto, olhar estranho, sem se mover.
A musica voltou a fazer-se ouvir, as pessoas voltaram a conversar. Só Artur não conseguia sair de onde estava. Até que a sua mulher, Cândida, pegou nele e começou a dançar. Mas aí, já ninguém se voltou...

Helena

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Quem não arrisca...

Elvira sentia-se muito só. Tinha cinquenta anos e pusera fim a um casamento de trinta.
Os filhos haviam compreendido a sua decisão, mas já tinham família constituída e pouca disponibilidade para se ocupar da solidão materna.
Uma velha amiga, que vivera muito tempo expatriada, dizia-lhe imensas vezes que ela devia ir a uma agência de matrimónios e tentar encontrar a alma gémea. Ou inscrever-se num grupo de danças de salão onde podia conhecer alguém por quem se apaixonasse. De outro lado, sugeriam-lhe cursos de pintura ou de vitrais que podiam ser igualmente locais de apaziguamento do vazio que sentia dentro de si. Mas ela hesitava.
Um dia, no cabeleireiro, viu numa revista um anúncio de alguém numa situação semelhante à dela e que procurava senhora da sua faixa etária para fins sérios. Tomou nota do telefone e depois de vários serões de hesitação resolveu telefonar.
Atendeu-a uma voz fresca, afável, segura, que a motivou. Os telefonemas foram-se sucedendo e Elvira estava no paraíso. Tinha tido uma segunda chance, uma nova oportunidade. Mas impunha-se, ao fim de dois meses de conversa, que se encontrassem.
E foi o que decidiram fazer num determinado dia e em certo local público. Tudo combinado, ela esperou, esperou, mas ninguém apareceu. 
À noite o Miguel - era esse o nome dele, a que acrescentava, como apelido, um sonante Peres de Albergaria - pedia imensas desculpas mas o solar de família, em Santarém, tinha tido uma inundação.
Desculpa aceite marcaram novo encontro numa esplanada no Jardim da Estrela. Ela disse-lhe que iria de amarelo e ele levaria o Expresso com um cravo vermelho dentro. Assim foi. Elvira já não podia recuar perante o homem do cravo, que se erguia para a receber. Homem que, pelo aspecto devia ser pai daquele com quem ela falava. 
Puro engano. Mal ele lhe dirigiu a palavra ela reconheceu o tom e o timbre. Só não reconheceu o rosto que havia imaginado...

Helena

domingo, 13 de janeiro de 2013

Elas não sabiam...

Beatriz, a única das irmãs que ficara solteira - para tia como na família sussurravam -, sonhava o que as restantes, alguma vez, seriam capazes de fazer. As quatro tiveram vidas completamente diferentes. 
Antónia era uma viúva convenientemente chorosa de um marido que jamais amara. Natália era casada e adorava o companheiro que a via mais como amiga do que como mulher. Francisca era divorciada, a primeira naquele clã, e ansiava por encontrar substituto para o lugar deixado vago no seu leito e na sua posição na sociedade.
Todas tinham tido uma história pessoal antes de atingirem o estatuto em que se encontravam. Só de Beatriz jamais se conhecera qualquer rumor e era, até, frequente referirem-se ao facto com comentários mais ou menos jocosos. Aos quais ela sorria, e impassível respondia que "só Frei Bento sabia o que iria no convento".
Não, elas não sabiam. Nem precisavam de saber. Mas os seus sonhos eram carregados de carícias, de beijos, de sexo. Que, durante um ano, ela vivera intensamente. Tanto e de forma tão viva que chegava a acordar com o corpo suado, a respiração ofegante, o gemido arrastado de quem travara dura batalha corporal.
Não, elas não sabiam que o desinteressado marido de Natália, sorvera cada parcela do seu corpo, partilhara com ela os gostos mais extravagantes, segredara-lhe o que jamais a irmã ouvira.
Nenhuma delas alguma vez adivinhara no silencioso marido de Antónia, o fogo consumido pela paixão que votara à cunhada e que havia de o manter feliz até ao dia em que um carro o levara para um mundo melhor.
Porém, havia de ser com Manuel, ex marido de Francisca, que Beatriz viveria a sua derradeira caminhada para o inferno dos sentidos. Era ainda com este que sonhava os seus intensos sonhos eróticos. E com ele que, continuava a encontrar-se, para de cada vez se prometerem, que essa seria a última.
De facto, nenhuma das irmãs conhecera o marido que a vida lhes havia arranjado. Apenas Beatriz, aquela de quem tanto troçavam, os havia verdadeiramente conhecido e, diga-se, bem apreciado!

Helena

sábado, 12 de janeiro de 2013

Uma noite...

Era um fim de tarde de Domingo. Isabel tinha aproveitado a ocasião para arrumar uns papeis. Havia chegado a uma altura da sua vida em que convinha que fosse ela própria a escolher aquilo que poderia, mais tarde, ser visto e mexido por aqueles que cá ficassem.
Foi no meio dessa papelada que surgiu um bilhete amarelado com uma frase em francês, muito singela, que dizia "merci ma chére amie. Vous resterez toujours dans mon coeur"* Viu a data e sorriu. Eram palavras de um verão de 1968. 
Isabel conhecera Jean Luc quando trabalhava num departamento oficial que a obrigava a deslocar-se ao estrangeiro com frequência. Ambos juristas. Ambos casados. Mas a simpatia mútua foi imediata e fortaleceu-se ao longo de meses de trabalho e convívio.
Naquele verão, Jean Luc fora para Estrasburgo de carro. Isabel, como sempre, tomou em Paris o combóio. As reuniões prolongaram-se mais do que era esperado, pelo que a solução seria aguardar pelo dia seguinte. Foi nessa altura que ele a convidou a fazerem juntos, no seu automóvel, o retorno à capital. Ela aceitou.
Teria talvez passado uma hora de viagem quando resolveram parar para comer qualquer coisa. Foi então que algo se passou e Isabel, ainda agora, não sabe explicar o que aconteceu. O clima entre ambos proporcionou que Jean Luc pegasse nas suas mãos, as levasse à boca para as beijar e que ela não reagisse.
Fizeram o resto da viagem enlaçados. Chegados a Paris, criou-se um momento especial quando Jean Luc lhe perguntou o que ela queria fazer.
Sobre o que ela queria, não tinha dúvidas. Sobre o que devia é que as dúvidas eram muitas. Acabou por lhe pedir que a deixasse no hotel. Ele subiu e ela consentiu.
Ainda hoje, tantos anos decorridos, Isabel se lembra dessa noite. Nunca se havia entregue com tanta liberdade a ninguém. E nunca se sentira tão desejada e tão bem amada. Ficou a dever àquele homem um outro tipo de conhecimento próprio. Ele libertou-a de grilhões que, afinal, só a tinham impedido de ser quem era.
Este bilhete foi-lhe enviado dias depois. Isabel está hoje viúva. Jean Luc também. Mas nunca mais voltaram a encontrar-se...

HSC

* "obrigada minha amiga. Você estará sempre no meu coração"

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Acabou, José!

Quantas vezes te terei já dito que acabou? Findou, José, embora tu possas não acreditar. 
Quantos anos levei eu a pedir o teu amor? Quantos anos levei eu a relembrar os teus gestos de carinho, mesmo quando já sabia que eram puramente mecânicos e não traduziam, senão, uma forma de me manteres calada? Foram tantos. Em nome deles vou tentar explicar-te o que se passou.
Quando te conheci não me apaixonei por ti. Apaixonei-me pela tua inteligência, pela tua cultura, pelo teu brilhantismo, por essa tua capacidade de seduzires sem te dares, sequer, ao trabalho de tentar perscrutares quem seduzias.
Para mim era algo completamente novo. Eu saía dum mundo onde as regras para o amor eram o património e o nome de família. E onde a obrigação era tentar que tal sentimento agregasse esses dois pólos.
Tu saías fora deste jogo. Bem sei que a tua família era da chamada alta burguesia rural. Mas tu até te rias disso. Era fácil, aliás. Na vida real, não prescindias dos privilégios. No pensamento, podias dar-te ao luxo de os criticar.
Tantas vezes te chamei a atenção para essa incongruência. Mas tu rias e dizias que eu era reaccionária. Era, de facto. Reagia a esses falsos valores bem apregoados mas bastante mal digeridos.
Foram anos a tentar pensar como tu, a tentar chamar a tua atenção. Foram anos sem o conseguir e a sentir-me como a menos qualificada das criaturas. Porque, afinal, o intelectual, o respeitado, eras tu. Eu era, apenas, a tua mulher.
Até que um dia alguém me disse que tu eras um boneco de plasticina. Que te adaptavas a todas as formas de vida. Que não possuías uma espinha dorsal.
A verdade foi violenta. Não porque, no fundo, eu não a conhecesse. Conhecia. Mas nunca havia tido a coragem de enfrentar a realidade, preferindo transferir para mim a incapacidade de estar ao teu nível.
Foi o princípio do fim, do nosso fim. Hoje quase não entendo como pude anular-me para ganhar o teu amor. 
Não te esforces tu, agora, a ganhar o meu. Não chegas lá, porque o meu mundo nada tem a ver com o teu. E do teu, eu só quero distância. Para poder continuar a ser quem sou.
Acabou, José!

Helena 

sábado, 22 de dezembro de 2012

Subir a pulso e ficar só!

Tudo na vida de Joaquina a levaria para uma existência normal. Normal porque igual a tantas outras. Nascida na Costa da Caparica, filha de pescador e de peixeira, cedo se aventurou nos mercados municipais, onde a mãe vendia o que o pai havia recolhido.
Foi aí que aprendeu o jeito de mercar, de escolher aqueles com quem se podia negociar. A deterioração da saúde materna havia de leva-la a ocupar na praça o lugar deixado pela progenitora.
Esperta e também afoita, rapidamente se deu conta que o mercadejar individual dava menos do que falar e discutir preços e condições com os grandes revendedores. Treinou-se nesta arte e nunca teve pejo de baixar o seu preço para ganhar aos colegas o cliente aprazado. Foi assim subindo os degraus da vida e a dada altura já era ela a intermediária. Entre os que continuavam como ela e os grandes compradores. O corpo havia de ajuda-la a simplificar alguns negócios. E a conhecer outro meio.
Quando a mãe morreu já deixara a banca e tinha uma espécie de escritório na pequena casa onde viviam. Esta e aquele foram crescendo e uma década passada sobre a partida materna, Joaquina já vivia numa moradia, tinha carro e gente que trabalhava para ela.
Com quarenta anos possuía tudo o que sonhara. Só não tinha amor nem tempo para o encontrar. Há vidas assim, que não conseguem encaixar os dois pratos da balança do sucesso. Deixou, por isso, de pensar no amor e continuou a enriquecer e a vingar-se, afinal, do que nem a mãe nem a menina que fora, haviam tido.
Hoje tem setenta anos e uma vida centrada na riqueza. Amigos apenas possui os que dela dependem. O que é a mais trágica forma de solidão.
Joaquina morreu sozinha numa noite de consoada. Sem ninguém a seu lado. Sem herdeiros, havia de ser o Estado a ficar-lhe com tudo o que na vida havia ganho...

Helena

domingo, 9 de dezembro de 2012

A verdade da mentira

Sempre foste mentiroso. Mas eu sempre soube disso e amparei o teu jogo. Hoje pergunto-me porquê e não sei qual das respostas que ensaio é válida. Seria porque o sexo era bom? Creio que não, pelo que, depois de ti, aprendi. Seria porque eras o mais terno dos homens que conheci? Duvido, porque atrás dessa ternura vinha sempre um pedido, uma solicitação interesseira. Seria porque me davas a mão, quando os outros olhavam para nós? Improvável, porque quando estávamos sós esses dedos nem os meus tocavam. Seria porque eras a minha droga, a minha vitamina, a razão pela qual eu existia? Talvez. É muito possível que essa fosse a primeira das causas.
Seriam, de certo, muitas as razões por que eu te amava. Razões frágeis, falsas, destrutivas. Mas, nem por isso, menos reais. Ou, apesar disso, suficientemente ponderáveis para que eu não fosse capaz de te deixar, na certeza de que se o fizesse, não sobreviveria.
Contudo, um dia, foste capaz de falar verdade. De me avisar. De me deixar. E eu, tonta, habituada que estava à mentira do nosso amor, não te acreditei. Esperei, na certeza de que haverias de voltar. Terias que o fazer porque não sabias viver com a verdade. Mais cedo ou mais tarde. Não importava. Havias de voltar, eu tinha de confiar que assim seria. Só não sabia quando...
Afinal não voltaste. Para mim. Voltaste para quem querias voltar. E eu, idiota, ainda me recusei a acreditar. Esquecendo que a vida não se escreve. Apenas acontece. Para alguns. Porque, para outros, ela apenas se limita a passar...

HSC

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Diálogo provável

Joana sabia que um dia Marta poderia vir a saber. Não seria a primeira nem seria a última. Mas era uma mulher pragmática e não estava para tomar decisões precipitadas.
Afinal se o António não se divorciava porque havia ela de faze-lo? Há muito que aprendera que mais vale ter um pássaro na mão do que ter dois a voar. Mas o que ela não esperava foi que ele lhe comunicasse que deveriam ambos tomar uma decisão. E que essa decisão fosse o resultado do diálogo que se segue:
- Temos de tomar uma decisão agora, Joana.
- Mas que decisão?
- A de nos divorciarmos
- Mas porquê agora?
- Porque andamos nesta situação há cinco anos.
- Está bem. Mas deve haver uma razão para ser agora que levantas o problema.
- Estou farto...
- Mas ontem não estavas. O que é que mudou em 24 horas?
- Mudou tudo.
- O que é o tudo?
- É a Marta ter decidido dizer-me há uma hora que se quer separar de mim.
- Ah! Agora já percebo.
- Ainda bem querida. Eu sabia que tu ias compreender. Afinal sempre desejaste isto, não é verdade?

HSC

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Fado

A Rosa era fadista e como está na sina da canção, a sua vida não foi feliz.
"Filha de pai desconhecido", era o que o seu registo contava. Mas a mãe, antes de morrer, disse-lhe quem era o progenitor que, à época do nascimento, estava casado. Por isso Adozinda jamais lhe dera conhecimento da bastarda. Nem teria podido, já que o putativo responsável da gravidez, mal soubera dela, pôs-se ao fresco.
Os anos correram. Rosa tomou nome e apelido. E também profissão. Passou a ser Rosa Costa, fadista consagrada daqueles que amavam a canção nacional e as touradas. Com isso veio o amor eventual, o amor passageiro. Aquele que se toma por uma noite, ou por uma semana, e que é passe ou salvo conduto de entrada nos luxuosos hotéis onde este tipo de histórias se costuma abrigar.
Um dia, talvez por se ter dedicado mais do que devia, a quem apenas dela apenas se servia, reviu-se na aventura materna, como se esta fosse herança a que tivesse de prestar tributo. Sorte a sua, não ter tido fruto desse seu caso. Que haveria de frutificar de outro modo, confrontando-a consigo própria e com um destino que ela decidiu havia de ser diferente.
Pegou nos poucos papeis que a mãe lhe deixara e partiu a procurar as suas origens. Não foi tarefa fácil, porque ninguém lha queria facilitar. Todavia, com o pouco que sabia, meteu-se a caminho do Brasil, ao inesperado confronto com seu pai. 
Encontrou-o, moribundo num hospital paulista. Mas haviam de abraçar-se trinta e sete anos depois.
Hoje Rosa já não é Costa. Nem fadista. É socialite e chama-se Gaby. Gaby Dirceu, dona da maior rede de drogarias do país irmão. Nem é, mais, a filha de pai desconhecido...

Helena

sábado, 3 de novembro de 2012

Um Domingo em Paris

Era Domingo em Paris. Como sempre acontecia quando Joana viajava em trabalho e tinha reuniões à segunda feira, aproveitava para partir ao sábado e descansar naquela que era, para si, a primeira cidade depois de Lisboa. Ambas tinham uma luz especial e o céu rosado do Outono na capital francesa era algo que Joana não dispensava quando lá ia.
Chegara na véspera, largara a mala no hotel e, como sempre acontecia, saíra de imediato para se perder na multidão que circulava nas ruas num fim de semana de sol.
Jantara num pequeno bistrot perto dos Campos Elísios, fora ao cinema e, ao fim da noite, antes de se recolher, ainda tomara um chocolate quente numa esplanada, onde um jovem tocava violino.
Acordara tarde no dia seguinte, que estava belíssimo. Decidiu caminhar pelas ruas a apanhar o sol no rosto. A certa altura apeteceu-lhe parar num drugstore para comprar umas revistas e se sentar a tomar um café.
Dirigiu-se à grande mesa quadrada onde estavam expostas as publicações mais recentes. De repente sentiu que estava a ser observada, mas o grupo que rodeava a mesa não lhe permitiu ver com discrição quem o fazia. Esperou um pouco e escolheu uma revista de cinema. Quando estendeu a mão para a apanhar, alguém colocou outra mão sobre a sua. Entre o encontro de olhares que se seguiram mediaram segundos, sem que qualquer gesto fosse feito. 
Quando finalmente Joana largou a revista, não sabia bem o que fazer. Só conseguiu sentar-se na mesa do café e ficar parada. Uns minutos depois tinha-a na sua mesa. E com ela, a mão de que antes se libertara, que agora pegava na sua. 
Foi um cálido encontro numa tarde de Domingo em Paris...

HSC

sábado, 15 de setembro de 2012

Momentos especiais

Há na vida de cada um de nós momentos especiais. Não têm que corresponder a datas de tradição familiar, nem a acontecimentos particulares.
Era sábado quando decidi ir até Campo de Ourique, local onde habitualmente realizo as compras de fim de semana. Ao passar junto à Basílica apeteceu-me entrar. Não porque fosse ocasião de missa ou que tivesse algum assunto para tratar. Nada disso. Foi gesto impulsivo, uma necessidade do momento, que poderá até ter sido ditada por uma semana particularmente agitada.
Arrumei o carro e entrei. A igreja não tinha mais do que seis pessoas e a luz que entrava através da cúpula e dos vitrais tinha algo fora do comum.
Sentei-me junto do altar de S. José, o meu tardio padrinho de baptismo - é verdade, tinha vinte anos quando decidi faze-lo - e ali fiquei imóvel por um bom bocado. Absolutamente entregue ao momento, sem orar, sem me mexer.
Teriam passado uns quinze minutos desta estática em que me encontrava quando uma criança cor de café com leite se aproximou de mim, se sentou, encostou a cabeça ao meu regaço e me disse "leva-me para tua casa". 
Surpreendida perguntei-lhe pelos pais e como havia ido ali parar. Levou tempo a que lhe ouvisse a resposta "morreram, leva-me para tua casa". Tentava ainda perceber alguma coisa do que se passava na vida da miúda, quando vejo uma autêntica matrona dirigir-se para o local onde nos encontrávamos, pegar na garota e leva-la por um braço para fora dali.
Incomodada peguei na carteira e saí para lhe perguntar que tipo de laços a ligavam à criança. Nada. Num ápice tinham desaparecido ambas...

Helena  

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Diálogo improvável

- Toma cuidado Eva. Qualquer dia rebenta-te a batata quente nas mãos.
- Não. Ele só está mesmo à espera de arranjar uma casa, porque já vivem em quartos separados.
- Todos dizem isso. E tu que és amiga do casal bem sabes que eles aparentam estar bem. Então ele está todo carinhoso com a Ivone só para gente ver? E tu aguentas essa situação há mais de seis meses? Ainda se encontram naquela pensão miserável com água correntes quentes e frias, que fica ali para os lados da Praça da Alegria?
- Ainda. Aí, pelo menos, não corremos riscos de encontrar gente conhecida.
- Isso é o que tu pensas. Corres é o risco de apanhar alguma doença...Mas ouve lá, se o Jorge agora até ganha bem, porque é que ele não te leva para um hotel?
- Está melhor, de facto. Mas não é rico...
- Não? Mas ele não é deputado?
- É. Mas é de esquerda. E esses ganham menos.
- O quê? Estás doida? Os deputados ganham todos a mesma coisa.
- Mas parece que eles têm de ajudar o partido e dar alguma coisa do que têm, ou do que ganham. Não sei bem!
- Ah, sim?
- É verdade. É o que ele me diz. E o Jorge não me mente.
- Então porque é que ele não lhes dá a Ivone, que é o que ele tem de melhor?!

Helena

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Aprendizagem...

Há quem diga que ela era bipolar. Desde que perdera o rapaz da sua vida, que esta tendência começara. Mas não se julgue que a Isménia era tola ou que estas alternâncias de humor seriam formas de chamar a atenção dos outros. Não senhor, porque ela sempre fora rapariga equilibrada. Mais dada a tristezas, é verdade, do que a alegrias. Mas isso, todos sabemos, está na alma de muitas portuguesas que, pese embora não cantem fado, não deixam de lhe glorificar com o exemplo, as contrariedades da vida.
Todavia, quando conheceu o Tobias, tudo se modificou. O rapaz, filho de emigrantes e já nascido em França, tinha um modo de falar e de olhar as pequenas da terra, que as deixava enfeitiçadas. Mas foi na Isménia que ele encalhou, talvez, quem sabe, porque o tipo dela, loira e de olho azul, lhe lembrava a Adele, a francesa com quem ele se iniciara nas lides sexuais e que tinha uma boa dezena de anos a mais do que ele...
Assim, aquelas "vacancias", como ele próprio dizia, foram uma forma de ter uma Adele da sua idade, na sua terra. E foram para Isménia a descoberta de algo que não conhecia. 
Primeiro, a medo, quase julgou que "aquilo" a matava. Logo depois, passou a gostar e, finalmente, o cozinhado virou gourmet de alta qualidade...e em tal quantidade que o pobre Tobias parecia ter olheiras desde a nascença.
As férias acabaram e o jovem voltou à pátria. Porém, Adele parecia-lhe, agora, um pãozinho sem sal, made in France. O seu iniciado só queria dar-lhe lições de como fazer melhor, o que ela antes julgara fazer muito bem . 
Isménia tornou-se uma sex symbol na sua terra. E aprendeu a tirar partido disso. Primeiro foi o Presidente da Junta de Freguesia. Depois o Presidente da Distrital, que a trouxe para a cidade. Dali veio para a capital fazer trabalho no partido.
Trabalhou tanto que encantou um futuro deputado. Que acabou por se casar com ela. Mas a rapariga aprendeu que na política, o melhor é mandar. Por isso "despachou" o deputado e agora é ela a candidata. E consta que ambiciona chegar a lider parlamentar.

Helena

sábado, 11 de agosto de 2012

Também acontece



Eram cinco irmãos tão diferentes como os dedos da sua mão. Era isto que Olímpia dizia  quando se referia aos filhos.
A primeira, Adozinda, fora fruto de um parto complicado e vira sempre a sua vida como a consequência directa desse facto. O segundo, Francisco de seu nome, havia de ser o contrário. Parto fácil e rápido tornaram-no um rapaz despachado, alegre e com gosto pela vida. A terceira, Floripes, viu a luz do dia antes de tempo e, quem sabe, por causa disso, fora sempre frágil e assustadiça, como que a pedir desculpa ao mundo por se ter adiantado. O quarto, Adriano, era um rapagão que ia pondo a vida da mãe em risco mal soltou o primeiro gemido. Havia de continuar, vida fora a inquieta-la porque escolhera o boxe como carreira e nunca se sabia em que estado voltava para casa. A última, Felismina  já nascida fora de tempo, foi contudo aquela que menos trabalhos deu. Era uma criança risonha e feliz.
Todos eles tinham paternidade diversificada. Mas isso não impediu que surgisse o sétimo elemento desta família, o Gervásio, que se apaixonara por esta mãe de família e, para a ter consigo, acabou levando o pacote todo, ou seja o clã completo, que acabaria por ajudar a criar.
Os anos passaram, a Olímpia já não era nova, e os tempos haviam-na ensinado a ser egoísta  Assim, cansada de ser mãe a tempo inteiro, quando chegou a altura decidiu juntar-se, de novo, ao pai da última filha, deixando contudo a Gervásio, os filhos que ele ajudara a criar.
E este não só aceitou a incumbência como exigiu dar-lhes um nome, que eles não tinham. O quinteto perdeu a mãe biológica, mas ganhou um pai adoptivo. Ainda há histórias de homens bons que casam com mulheres egoístas e que têm finais felizes...

Helena